Sobre lobos e bules de chá

18/04/2017

Diga aos lobos que estou em casa | AttraversiamoDIGA AOS LOBOS QUE ESTOU EM CASA | CAROL RIFKA BRUNT
464 PÁGINAS | NOVO CONCEITO | 2014

1987. Só existe uma pessoa no mundo inteiro que compreende June Elbus, de 14 anos. Essa pessoa é o seu tio, o renomado pintor Finn Weiss. Tímida na escola, vivendo uma relação distante com a irmã mais velha, June só se sente “ela mesma” na companhia de Finn; ele é seu padrinho, seu confidente e seu melhor amigo. Quando o tio morre precocemente de uma doença sobre a qual a mãe de June prefere não falar, o mundo da garota desaba. Porém, a morte de Finn traz uma surpresa para a vida de June – alguém que a ajudará a curar a sua dor e a reavaliar o que ela pensa saber sobre Finn, sobre sua família e sobre si mesma. No funeral, June observa um homem desconhecido que não tem coragem de se juntar aos familiares de Finn. Dias depois, ela recebe um pacote pelo correio. Dentro dele há um lindo bule que pertenceu a seu tio e um bilhete de Toby, o homem que apareceu no funeral, pedindo uma oportunidade para encontrá-la. À medida que os dois se aproximam, June descobre que não é a única que tem saudades de Finn. Se ela conseguir confiar realmente no inesperado novo amigo, ele poderá se tornar a pessoa mais importante do mundo para June. "Diga Aos Lobos Que Estou Em Casa" é uma história sensível que fala de amadurecimento, perda do amor e reencontro, um retrato inesquecível sobre a maneira como a compaixão pode nos reconstruir.

"Diga aos lobos que estou em casa" faz parte da lista de 12 livros em 12 meses e, apesar de tê-lo finalizado há um bom tempo, só agora criei coragem para escrever essa resenha que, possivelmente, se mostrará um tanto quanto paradoxal. De qualquer forma, first things first.

A narrativa é desenvolvida em primeira pessoa pela protagonista June Elbus, uma garota de 14 anos que se sente deslocada e considera seu padrinho (e amor platônico), Finn, como a única pessoa do mundo que a compreende. Logo aí reside o primeiro problema, visto que, ao longo do livro, June se torna uma personagem um tanto quanto enfadonha e irritante. Resumidamente, ela passa boa parte do tempo se lamentando e sendo rude com outras pessoas, sendo que, em um amplo aspecto, leva uma vida normal de adolescente.

Claro, existe o falecimento de Finn e alguns outros percalços na trama, porém, há uma visível tentativa de convencer o espectador de que determinadas atitudes de June são aceitáveis por conta da perda que ela sofreu. Só que, de fato, não são. 

"Eu não acho que Deus criaria uma doença só para matar pessoas como Finn, e, se o fizesse, então não teria a menor chance de eu pensar em adorá-lo." P. 88
June se mostra uma pessoa amarga diversas vezes e, por mais que isso conceda veracidade à personagem, seu rastro de pessimismo e inveja acaba por contaminar a leitura, gerando, no lugar de empatia, incômodo e desânimo. Essa linha tênue, porém, importantíssima, não foi bem respeitada pela autora, fato que pode causar desapontamento.

Os personagens secundários são trabalhados de forma leviana, comprometendo a verossimilhança e credibilidade de suas respectivas histórias. Houve, aparentemente, uma falta de atenção aos pequenos detalhes. São fatos que não se entrelaçam de forma harmoniosa. Pelo contrário, mais parecem uma colcha de retalhos costurada à mão. Ou seja, ideias distintas que foram colocadas lado a lado para justificar um enredo com furos.

"E, no sonho, eu nem corria. Ficava exatamente onde estava, esperando os lobos me rasgarem." P. 137
É óbvio que existem pontos positivos no decorrer da obra, especialmente em relação ao amadurecimento de June que, apesar de mínimo, é notável (e muito bem-vindo). O relacionamento entre a protagonista e Toby, o namorado de Finn, também é assertivo e se desenrola de maneira amável, tornando a leitura mais leve e interessante. Entretanto, tal qual a AIDS, a própria homossexualidade ficou em décimo segundo plano, sem destaque, mesmo considerando sua importância perante os tabus da época. 

Sobre a apresentação visual, posso opinar, de acordo com uma percepção pessoal, que o design da capa é agradável e muito bonito (além de conter referências), bem como os detalhes internos no início de cada capítulo. A diagramação é bem desenvolvida e a fonte de corpo possui boa legibilidade.

"Pensei em todos os tipos diferente de amor no mundo. Consegui pensar em dez sem nem me esforçar." P. 353
De toda forma, acredito que a minha maior ressalva é quanto ao desleixo na tradução/revisão do livro. Foram tantos erros ao longo da narrativa que, lentamente, fui ficando irritada. Inclusive, antes de elaborar essa resenha, entrei em contato com a editora Novo Conceito para questionar a respeito de uma possível reimpressão ou, ao menos, receber uma justificativa (?) e estou sem resposta até hoje.

Para não dizer que estou exagerando, irei listar alguns dos vários erros encontrados ao longo do livro:

"Ele me examinou e, depois, de repente, suas sobrancelhas franzidas deram lugar a um sorriso grande e desconfiado." P. 133 – Esse trecho em específico trata sobre Greta, a irmã de June, portanto, o correto seria ELA.

"Os dedos longos de Finn apertaram-se em volta do volante." P. 153 – Essa frase fala sobre Toby, não Finn, visto que o segundo já estava morto e não sabia dirigir, no caso.

"Às vezes, aos domingos, enquanto Finn estava nos pintando, ele lavava uma máquina de roupa para ele." P. 228 – Esse pedaço descreve a mãe de June, logo, o correto seria ELA.

"Do lado de dentro, a gaiola não se parecia em anda com as outras pelas quais tínhamos passado." P. 231 – Palavra "nada" escrita de forma errada.

"As ideias de Toby erram mais sombrias." P. 324 – Palavra "eram" escrita de forma errada. 

"Eu não estava preocupada de verdade, porque imaginei que ela ainda estava na delegacia." P. 413 – A passagem refere-se ao Toby, então o correto seria ELE. 

"La estava Greta, de pernas cruzadas (...)." P. 435 – Palavra "lá" escrita de forma errada.

"Porem, há outra parte do meu coração que sabe que finalmente cumpri minha promessa." P. 450 – Palavra "porém" escrita de forma errada.

Acho que já deu para ter uma ideia, né? É um carnaval de erros.

"Você pode construir um mundo inteiro em volta dos menores toques. Sabia disso?" P. 360
Em suma, há uma gama extensa de particularidades que poderiam ser melhores. Portanto, apesar de considerar "Diga aos lobos que estou em casa" um bom livro e, certamente, recomendar sua leitura (afinal, cada um deve tirar as próprias conclusões), sinto-me na obrigação de expor que, provavelmente, o leitor não será arrebatado por algo genial ou mesmo emocionante. São apenas algumas várias páginas que, quiçá, cumprirão seu papel de entretenimento.

NOTA: 6/10

Já leu? Compartilhe sua opinião! Não leu? Pretende ler? Conta aí.

17 comentários:

  1. Ouvi muuuuuita coisa ruim desse livro kkk inclusive de amigas! Exatamente pelos pontos que você citou. Mas já li livros com erros gritantes também (incluindo Vida e Morte que já resenhei) e tentei relevar. Mas desanima muito quando os erros ficam repetitivos, sabe? Uma pena a editora nunca ter respondido. Adorei sua resenha, extremamente bem escrita *-*

    Nuvem de Novembro

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    1. Poxa, sério?! Me sinto até melhor, porque TODAS as resenhas que eu li a respeito desse livro só falavam bem, achei que eu havia me tornado uma velha chata. HAHAHAHA

      Sou super freak com português (não que eu seja a ~fodona), porém, acredito que empresas do ramo editorial não deveriam deixar passar erros tão grotescos. :/

      Obrigada. ♥

      Beijão ;*

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  2. Hhahahahah Vic a louca da gramática!!! Adorei, achei bem interessante! Vou colocar na lista!

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    1. HAHAHAHA Não desiste de mim!

      Depois me conta o que achou. :)

      Beijos ;*

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  3. huahuahua eu ri muito vendo você pontuando os erros de escrita. Eu também ficaria mordida lendo uma tradução desleixada.
    A capa me atraiu, mas parece que a história é meio fraca, né :c

    Com amor,
    Bruna Morgan

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    1. Tô achando que a minha chatice chegou a um nível perigoso. hahaha

      É terrível, né? Poxa, os caras trabalham (e lucram) com isso, deveria haver uma rigorosidade maior. :/

      A capa é sensacional mesmo! Porém, pessoalmente, achei que o enredo deixou a desejar pelos motivos que citei. :( Caso você leia, compartilhe sua opinião, vou adorar ler!

      Beijinhos :*

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  4. Fiquei até arrepiada com a quantidade de erros que têm nesse livro. É uma vergonha algo assim acontecer nos dias atuais, onde tem tantas formas de localizar e corrigir erros ortográficos.
    Você foi BEM paciente com esse livro, né? Eu não sei se conseguiria levar a leitura até o final, rs.

    Obrigada pela resenha sincera!

    Beijos ♡
    misinwonderland.blogspot.com

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    1. Guria, olha que nem coloquei todos, ein! :( Também acho super palha esse tipo de coisa, principalmente se considerarmos que é o trabalho da editora verificar/revisar tudo.

      Foram pouquíssimos livros que eu abandonei! Me sinto culpada por não continuar até o fim. HAHAHAHA

      Não por isso! Obrigada pela visita.

      Beijos ;*

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  5. Resenhas sinceras são as melhores, né? Os erros são grotescos, parece que digitaram o livro às pressas! Revisão zero.
    Adorei a resenha, super explicadinha.

    Beijos!

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    1. Que bom que você gostou! <3 haha Sempre sou 100% transparente nas minhas resenhas.

      Sim, horrível, né? :(

      Obrigada pela visita!
      Beijos ;*

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  6. Eu sempre achei o título desse livro muito curioso, e, juro, imaginava algo totalmente diferente do que você descreveu na resenha. De todas forma, mesmo você tendo dito que não é uma leitura INCRÍVEL, ele continua na minha lista de desejos. Ah, algo que me desanimou foi o fato de a tradução não ser tão boa, como você disse, pois eu odeio esse desleixo das editoras com todas as minhas forças o.O

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    1. Eu fui pega pelo título, admito! hahaha Foi uma decepção bem chatinha, inclusive. :( Depois me conta o que achou, vou adorar saber! <3

      Eu também sou ~chata em relação a esse tipo de desleixo, me incomoda muito.

      Beijos:*

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  7. Li esse livro e até fiz resenha também, pra mim também foi um tanto decepcionante porque tinha ouvido falar muito bem dele. Concordo com você, achei a June muito chatinha e a leitura arrastada por muitas partes, tanto que levei uns 2 meses para terminar de ler porque não gosto de deixar livros pela metade haha
    Ficou ótima sua resenha, parabéns!
    Beijos,
    http://www.nomundodaluablog.com/

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    1. Ah, que bom - finalmente - encontrar alguém que pensa da mesma forma que eu! hahaha

      Também não gosto de deixar livros pela metade, me identifiquei. hehehe

      Obrigada! <3 Vou procurar a sua resenha.

      Beijão ;*

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  8. Acho muito legal ver como livros causam impressões diferentes em pessoas diferentes! Eu não compartilho da sua opinião, pelo contrário, fiquei até muito envolvida com a história e me emocionei em diversas partes. Achei bem justificável toda a dor que June carregava pelo fato de ser um tanto quanto excêntrica e não parecer ter muitos amigos em sua vida. Senti o livro como uma lição para prestar mais atenção às suas atitudes com os outros ao redor (como o fato dela ter afastado Greta). Concordo com a sua observação quanto ao desenvolvimento de personagens secundários, achei bem pertinente. Não gostei do design da capa porque me passou um vibe muito fantástiva sendo que o gênero da obra é drama. Desculpa o comentário enorme haha
    Literalize-se

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    1. Gislaine, adorei seu comentário! De antemão: sinta-se sempre à vontade para escrever o quanto quiser. <3

      Concordo que as características peculiares da June ocasionaram solidão e até certa carga emocional, mas achei que ficou meio desbalanceado, sabe? :/ Não pareceu coerente.

      Também senti essa lição sobre prestar atenção às atitudes, mas (para mim) isso ficou lá no finalzinho, meio perdido. Eu já achei que o design da capa combinou demais com a June! hahahaha

      Obrigada pela visita.
      Beijos :*

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  9. Depois de ler tudo e crispar a boca pros erros eu tô perguntando como ele ainda ganhou um seis! eheheh
    Acho que eu já li uma resenha sobre esse mesmo livro (não lembro em qual blog) e um dos principais problemas que a pessoa apontou foi justamente sobre a falta de trabalho dos temas da AIDS e homossexualidade, especialmente em se tratando da época em que se passa a história. Acho que isso é pior para a história do que a falta de apego à personagem principal. Eu às vezes curto um livro e a personagem principal/narradora é aquela coisa que você não sabe como foi concebida... kkk
    Adorei a resenha e, tô ainda passada com os excessos de erros... me incomoda muito ler livros assim.
    xoxo

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