Campo de papoulas

01/03/2017


As mãos padecidas oscilavam ao menor sinal de esforço e as pernas mal eram capazes de sustentar o minguado peso de seu corpo. Sua boca estava ressequida, o gosto de sangue ainda recente em seus lábios.

A visão do campo de papoulas vermelhas se tornara uma memória distante e sem vida. No início, ao fechar os olhos, poderia sentir a leve brisa de verão e o roçar das pétalas em sua pele. Caso se esforçasse o suficiente, ouviria o farfalhar das folhas e, com um pouco de sorte, apreciaria o pôr do sol e todas as suas cores cheias de vida.

Vida. Seu estômago roncou. Era especialmente difícil tentar se concentrar em boas lembranças sentindo tamanha fome. Além disso, sua mente já não recordava de muito mais. Repetia, diariamente, a si mesmo, como um mantra: meu nome é Osher Cohen, meus pais são Aharon e Elisheva, tenho 12 anos. Ou seria 13? Não tinha certeza.

Sentiu um aperto na barriga. Estendeu o braço direito em direção ao vão da parte inferior da estrutura de madeira onde dormia e tateou até alcançar o pedaço de pão que roubara do lixo mais cedo no mesmo dia. Ao levá-lo à boca, sentiu o forte ranço de bolor que havia se impregnado na superfície e, tão logo, afastou a náusea com esforço.

Lembrou-se, vagamente, da rua onde morava e percorreu, mentalmente, o trajeto que fazia para ir à escola. Passou pela padaria na esquina e atravessou mais alguns quarteirões enquanto contava o número de passos. Tentou, inutilmente, evocar o cheiro dos pães e doces que costumava encher toda a rua, afim de escapar, ainda que momentaneamente, da realidade que lhe aprisionava.

Ouviu o apito familiar soar estridente.

 Todos em pé! – bradou uma voz masculina cuja silhueta inabalável estava em frente à porta do galpão.

Osher rapidamente se levantou, mesmo com a súbita sensação de estar prestes a desabar no chão. Com dificuldade, lembrou a si mesmo do que acontecia com aqueles que não permaneciam em pé.

Desviou quando um de seus colegas, acidentalmente, caiu sobre o sapato do homem de uniforme. Cerrou os olhos tão forte quanto era capaz e esforçou-se para não escutar os golpes abafados desferidos contra o corpo que, naquele momento, já não possuía mais vida. As palavras "Judeu imundo" pairavam sobre sua mente enquanto o menino continha as poucas lágrimas que lhe restavam.

Manteve-se ereto, na medida do possível, e acompanhou o grupo, como fora ordenado. A ideia de um banho lhe parecia demasiadamente humana, o que não soava razoável. Osher tinha dificuldades em manter a esperança de que as coisas pudessem, de alguma forma, melhorar. Porém, a crença de que, finalmente, haviam notado o erro cometido ainda habitava em seu coração.

Antes que tudo ficasse escuro, ele pôde jurar que sentiu o cheiro das papoulas.

34 comentários:

  1. Belíssimo (e triste) seu conto. A princípio não me toquei que se tratava do nazismo, mas, no decorrer dos parágrafos, essa certeza foi se tornando mais forte. Lembrei-me um pouco do Menino do Pijama Listrado, um livro de que gostei bastante. Enfim, meus parabéns!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Que bom saber que você gostou! A ideia foi justamente essa: não escancarar, a princípio, o tema do conto. Estou feliz que tenha conseguido transmitir o que desejava.

      Esse livro é muito bom, gosto bastante do autor, apesar de ter algumas ressalvas. haha

      Muito obrigada, de coração!

      Beijos ;*

      Excluir
  2. UAU, esse é o seu primeiro texto autoral? Ele é incrível! *O*

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Poxa, tu não sabe como fico feliz em ler isso! <3 Escrevo desde que me conheço por gente, tenho textos finalizados e alguns rascunhos aqui e lá, mas nunca havia publicado nada. Essa foi a primeira vez! hihi

      Beijão :*

      Excluir
  3. Não consigo falar, só sentir. Que conto foda!

    ResponderExcluir
  4. Oie, tudo bem? O conto foi muito bem escrito, a escolha das palavras, a intenção por trás de cada frase, e o exercício de fazer o leitor imaginar a cena. Parabéns! Beijos, Érika ^^

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Tudo certo e contigo? :)

      Gostei de saber a sua opinião. Obrigada. ♥

      Beijos :*

      Excluir
  5. Oiii! Gente do céu, que conto foi esse? Você escreve muito bem e, apesar de ser uma história triste, é um conto incrível.
    Me lembrou O menino do pijama listrado, mas isso foi mais perto do final. Pelo começo do texto não me liguei que era sobre nazismo.
    Beijos e escreva mais!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. AH, obrigada! Fico animada em saber que você gostou. ♥ Legal saber disso.

      Irei escrever! Obrigada pela visita.

      Beijos ;*

      Excluir
  6. MEUDEUSDOCÉU! Sabe aquele meme do Obama com cara de "Not bad"? Eu estou assim. E se tivesse na sua frente, iria começar a gaguejar, dar um grito esganiçado e te abraçar. Porque não há comentário suficiente que explique o quanto foi lindo esse conto! Triste, dolorido, cheguei quase a sentir uma lâmina fria passando na espinha, mas fiquei simplesmente encantada pelo talento incrível que você tem.

    Vi, escreva sempre. Escreva muito, muito mais! Eu quero ler tudo o que você postar. Sobre tudo o que vier na telha. Muito, muito obrigado por isso. Tenho mais uma pessoa em quem me inspirar. ♥

    Com carinho,
    Conto Paulistano.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Guria, tu não sabe como isso me deixa feliz, de todo coração! É o primeiro conto autoral que publico - os outros estão trancafiados em alguma gaveta por aqui - e estou super contente em ver essa repercussão tão boa. ♥

      Pode deixar, a tendência é escrever cada dia mais! HAHAHA Fico honrada com isso, de verdade.

      Beijão!

      Excluir
  7. O-M-G!!!
    Eu estou em choque... Péra.

    Pronto.
    Cara, o que foi isso?
    Você simplesmente fez com que essa leitura desse um soco no meu estômago.
    Muita gente precisa aprender com seu jeito de escrever, portanto, escreva outros contos.

    Beijos
    http://ocoracaodomenino.blogspot.com

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Você não sabe como fico empolgada em ler comentários como o seu! É uma honra tremenda, de verdade. Escreverei, sim! Obrigada.

      Ah, e você é novo por aqui, né? Espero que tenha gostado do cantinho, agradeço sua visita. <3 Já estou seguindo seu blog!

      Beijos :*

      Excluir
  8. Olá!

    Li nos comentários que foi a primeira vez que você posta algo autoral, olha... pode postar mais, porque você escreve muito bem! Eu tenho coisas autorais também, mas ainda não tive essa coragem de postar pra um público maior, haha.

    Beijos,

    Raquel
    http://digaileitoresblog.blogspot.com/

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Oi, Raquel! Obrigada pelo comentário tão amável. Fico muito feliz que tenha gostado da minha escrita. <3

      Juro que nem eu sei como tive coragem de postar o conto! HAHAHA É a primeira vez que faço isso e te incentivo a fazer também. Quero ler o que você escreve. :)

      Beijos ;*

      Excluir
  9. Me dá um abraço? Esse conto me doeu - e o que é mais dolorido é que ele poderia ser real. De uma beleza única. Parabéns! Não deixe de continuar escrevendo. <3

    https://deborapizolito.wordpress.com/

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Mas é claro que dou! <3 Foi algo bem pesado que saiu de dentro de mim, estou animada em ter conseguido transmitir isso por meio das palavras.

      Muito obrigada, de coração mesmo! Ah, e seu blog é maravilhoso, viu?!

      Beijos ;*

      Excluir
  10. Menina.. Uau, que texto. Me arrepiei toda, que triste e intenso! Eu gostei muito, você escreve MUITO bem! Mesmo.

    Beijocas,
    www.dossiedeverao.com

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Muito obrigada! Fico super grata pelo seu feedback. <3

      Beijos :*

      Excluir
  11. Ah, que conto mais lindo! O nome me chamou muita atençao, a foto também, nao poderia deixar de ler. Deixou com um gostinho de quero mais <3

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Valeu, Liz! De verdade mesmo. <3 Quem sabe não rola mais um em breve?! hahaha

      Beijão ;*

      Excluir
  12. Vic, certeza que é o primeiro?! Eu não sei o que te dizer, de verdade. Me fez sentir tantas coisas seu texto, talvez tristeza tenha sido um ponto alto mas também, como pode ser a vida de alguém colocada assim, como se fosse 'lixo' =/ é tão triste... Continue escrevendo menina, você é ótima! Beijos!

    Metamorphya•••

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. É o primeiro publicado aqui no blog! :P Tenho alguns outros perdidos em gavetas por aqui. HAHAHAHA

      Fico extasiada em saber que consegui passar tanto sentimento por meio das minhas singelas palavras. <3

      Muito obrigada! Adorei teu blog, aliás.

      Beijão :*

      Excluir
  13. Guria, que texto/conto sensacional. Posso te dar uma dica? Tenta criar uma história com ele, vai ficar incrível e eu leria na certa ♥ Cheio de sentimento, emoções e intensidade. Admito que sou fascinada por qualquer história que envolve essa época do mundo, é curioso e ao mesmo tempo angustiante. Enfim, tá muito bom. Ah, e se é realmente seu primeiro conto autoral, faça o favor de continuar rs.

    ResponderExcluir
  14. Muito obrigada, Kelly! ♥ Adorei a sua dica, guria, vou tentar colocá-la em prática. Obrigada novamente. É o primeiro que publico no blog! HAHAHAHA Tenho alguns outros escondidos por aqui. :P

    Beijos ;*

    ResponderExcluir
  15. Meu deus tava tudo indo bem até eu perceber que tinha a ver com nazismo e ele foi para na câmara de gás, que horror e que lindo ao mesmo tempo, você escreve muito bem ♥

    PS. notei que a gente usa o mesmo layout, como é que vc fez pros comentários não ficarem comidos no canto? Obrigada :D

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Obrigada, Ludimila! ♥

      Então, sabe que eu não sei?! De qualquer forma, o layout tinha vários bugs na versão responsiva, por isso acabei mudando. :/ Mas acredito que devo ter mexido dentro do html. Pesquisa por "comments" e testa alterar a largura.

      Beijos :*

      Excluir
  16. Victoria, não desgrudei os olhos da tela um instante sequer enquanto lia! Que narrativa incrível desse conto! Você conseguiu transmitir todas as imagens necessárias para a história de um modo muito incrível!
    E, passando ao conteúdo, parecia que eu estava lendo a página de um livro, que conheço Osher e toda sua luta e sofrer. A história é triste - porque não dizer tristíssima - e foi contada de modo tão belo e real... tenho nem o que dizer.
    Vi aqui nos comentários que é seu primeiro conto autoral e só posso dizer, quero mais, ok!!!
    xoxo

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Rê, seus comentários são sempre tao singelos e amorosos, me derreto toda! HAHAHA Obrigada, de coração, pelos elogios e pelo carinho. Fiquei muito contente em receber esse feedback tão bom! <3

      É o primeiro que publico, mas tenho alguns outros trancafiados por aqui! HAHAHA Quem sabe eu posto?! :P

      Beijão :*

      Excluir
  17. Bem forte o seu texto! (quando li o título julguei que fosse mais do género de Ode à primavera ou assim) Gostei imenso do texto, da tensão e da tristeza nele. As crianças não deviam sofrer, nunca!

    Beijinhos,
    Mii
    Comic Life Blog

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Adorei a comparação com "Ode à primavera"! HAHAHAHA

      Gratidão! Não deveriam mesmo. :(

      Beijos ;*

      Excluir
  18. Que texto tão forte! Só me apercebi do tema quando li as palavras "judeu imundo" e juro por tudo que senti todo o meu corpo ficar tenso. É muito triste pensar que, infelizmente, este conto já foi uma realidade... Apesar do tema triste, gostei bastante! A escrita está fantástica!

    Um beijinho,
    Bia do Bookaholic.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Fico feliz em saber que consegui passar a emoção que desejava! Obrigada pelo elogio.

      Beijos :*

      Excluir

Obrigada pela visita! Caso queira, deixe um comentário. ♥ Não se esqueça de clicar na caixinha "Notifique-me" para receber a minha resposta em seu e-mail.

Tecnologia do Blogger.